sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Superstição faz blog deixar de existir

Por Gabriel Lago

Superstição. Ela está presente nos mais fiéis torcedores. Nos brasileiros, ela é ainda mais marcante, e se tratando de futebol pernambucano, ela sempre estará presente. Mas esta "qualidade" chegou ao ponto de fechar um blog. Isto mesmo. O "Blog do Santinha", um dos mais visitados blogs que falam sobre o Santa Cruz deixará de existir pelo simples motivo de que estaria dando azar ao Tricolor.


O blog foi criado em 2005, pelos fiéis tricolores Inácio França e Samarone Lima, em comemoração ao acesso à Série A do Campeonato Brasileiro. Desde este dia, o Santinha só vem fracassando nas suas competições, deixando de ter o principal time da região. Mas, apesar do fiasco do clube, o número de acessos só aumentava a cada ano.

Nesta quarta-feira, porém, o amor pelo clube subiu a cabeça e ultrapassou a fama com a torcida Coral. Inácio e Samarone, aliados aos autores do blog, Aline Moura, Anizio Silva, Coronel Peçonha, Dimas Lins e Geraldo Lima (Gerrá), anunciarem a aposentadoria do blog mais querido do mais querido. Hoje, outra matéria foi feita sobre o seu fechamento, que acontecerá no dia 13 de janeiro, dia de estreia do Santa no Pernambucano.

Confira o primeiro texto, publicado na quarta-feira:

"Amigos corais, depois de muitas reflexões, discussões, chegamos à conclusão de que é o momento do Blog do Santinha encerrar suas atividades.

No dia da abertura do Estadual 2011 (vejam a contagem regressiva, logo acima), sairemos do ar, para o alívio da torcida coral.

São muitos os motivos, mas o principal deles é que sentimos que estamos dando azar ao clube.

Desde que criamos este Blog, em 2005, a audiência só aumenta, o número de comentários só triplica, mas o clube, o nosso amado Santa Cruz, só apanha. Encontramos o clube campeão estadual, subimos para a Série A, mas agora amargamos a Série D.

Temos dado azar ao clube, dentro e fora das quatro linhas. Politicamente, temos pouco a comemorar. Acreditamos que se apoiarmos um candidato da situação, ele corre o risco de perder. Quando apoiamos um da oposição, ele foi escandalosamente roubado.

Se tivéssemos indicado Fernando Bezerra Coelho para o Ministério da Integração, ele estaria em Suape até hoje. Quando nos derramamos em louvores a um jovem craque como Léo, a quizila se abate sobre o jovem, que vive contundido.

De formas que vamos dar uma grande contribuição ao Santa Cruz. Deixaremos de encher o saco, com esse papo de “Democracia no clube”, e, principalmente, deixaremos de dar azar.

Nos próximos dias, ex-colunistas, colaboradores, pioneiros, comentaristas inoportunos, obsessivos, católicos, cardexistas, pais-de santo, terão a oportunidade de se despedir deste renomado espaço.

Vamos começar a nos despedir.

Um abraço a todos,

Equipe do Blog do Santinha."


Confira o segundo texto, publicado hoje:

"Amigos corais, depois de cinco anos e cinco meses de peleja no Blog do Santinha, aposento as chuteiras literárias.

A partir do dia 13 de janeiro, quando o Santa Cruz enfrentará o escrete do Vitória, não terei que ir ao estádio com meu bloquinho de anotações, duas canetas (um em cada lado da bermuda) e uma necessidade vital, antiga e irreversível de escrever a crônica do jogo. Crônica da vitória tem sido coisa magra, nos últimos anos. Não terei que anotar as frases de efeito, não farei rabiscos para, no dia seguinte, desenhar um improvável perfil, de alguém que jamais reencontrarei.

Voltarei a ser o que sempre fui, antes de fundar o Blog do Santinha, ao lado do velho amigo Inácio França: Um simples e pacato torcedor do meu querido Santa Cruz.

O filminho passa na cabeça. As primeiras postagens, quando trabalhávamos no Unicef, os personagens, jogadores que entrevistamos. Grupos que se uniram em torno de um divertido espaço na Internet. Sanfona Coral, Minha Cobra, peladas no campinho ao lado da piscina, torneio, muitas viagens nos famosos “Ônibus de Dani”, invasões a várias cidades, muitas cachaçadas boas.

Essas coisas de amizade, fraternidade, beleza, que envolvem uma torcida de futebol.

Minto: Que envolvem a torcida do Santa Cruz Futebol Clube.

Usamos o mote do azar para o aceno. Como bem disse um dos comentaristas, desses muitos que acessam o Blog do Santinha, azar mesmo estamos tendo é com dirigentes, porque a eles damos (ou nos tomam) o poder de comandar o clube, contratar, demitir, pensar, inovar, planejar. Um clube é fruto de uma articulada soma de bons profissionais, antenados com esse complexo mundo do futebol. Nesse aspecto, parece que pisamos em rastro.

Talvez não seja isso. O Santa Cruz tem algo de imponderável. Há tempos vejo, sistematicamente, pessoas capazes, articuladas, inteligentes, que amam nosso clube, profissionais bem sucedidos, serem paulativamente excluídas das gestões. São muitos, conheço uma penca. Isso eu lamento muito, e o nome não é azar.

Mas deixo isso de lado. Tudo o que eu tinha para escrever sobre o Santa, já o fiz. Perfis, artigos, série de matérias, crônicas, denúncias. Em alguns momentos, emocionado, em outros, irado. Fui processado criminalmente, mas ganhei inúmeros amigos. Talvez muitos não me queiram bem, mas isso é mesmo uma grande bobagem – todos amamos o mesmo Santa.

Voltarei às arquibancadas como um reles torcedor. Comprarei um radinho novo. Usarei a velha camisa coral. Continuarei o velho ritual, de tomar uma cerva num bar do centro, perto do Parque 13 de Maio. Depois, o ônibus rumo ao Arrudão. Lá, certamente encontrarei gente como Wellingtom Negão, ou o Hélio Matos, ou Caco, depois irei ao encontro da Kombi Coral, entupida de tricolores do Poço da Panela. Não posso citar os nomes. São dezenas que esbarro, antes de cada partida.

De lá, irei solitário tomar uma cerveja num boteco miúdo, metade de um fiteiro, quase defronte à sede. É ali que fico parado, quieto, pensando nesta torcida e no clube. Aproveito para pensar na vida. Neste dia, invariavelmente, agradeço por estar vivo, no Recife, a poucos minutos de entrar no Arruda, e ver o meu Santa entrar em campo.

Por último, entrarei no Arrudão. Como sempre, olharei a massa coral e terei aquele pressentimento antigo, primordial, que ultrapassa minha infância. “Estou em casa”, é o que repetirei pela milésima vez.

Voltarei às arquibancadas com a mesma esperança surrada de sempre, esperando aflito a bola deslizar para o barbante adversário, para explodir numa louca e inexplicável felicidade, abraçado com tantos desconhecidos, abraçado talvez com a própria felicidade.

A todos, meu fraterno abraço e sonhos de dias melhores para nosso clube."


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